Dívida pública brasileira se aproxima de R$ 9 trilhões em meio a juros altos e maior dependência da Selic

Alta da Selic amplia custo da dívida brasileira e aumenta dependência do governo por títulos atrelados aos juros básicos

Por: Redação
28/05/2026 às 00h23 Atualizada em 28/05/2026 às 00h27
Dívida pública brasileira se aproxima de R$ 9 trilhões em meio a juros altos e maior dependência da Selic
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A dívida pública brasileira voltou a crescer em abril e se aproximou rapidamente da marca de R$ 9 trilhões, pressionada principalmente pelo impacto dos juros elevados e pela forte emissão de títulos atrelados à Taxa Selic.

Dados divulgados pelo Tesouro Nacional mostram que a Dívida Pública Federal encerrou abril em R$ 8,798 trilhões, avanço de 1,9% em relação a março. O movimento reforça um cenário que vem preocupando parte do mercado financeiro: o aumento do custo de financiamento do governo em um ambiente de juros ainda elevados no Brasil.

O crescimento da dívida ocorreu em um mês marcado por emissão recorde de títulos públicos. Apenas em abril, o Tesouro Nacional lançou mais de R$ 200 bilhões em papéis, o maior volume já registrado para o período desde o início da série histórica.

Grande parte dessa emissão foi concentrada em títulos vinculados à Selic, justamente os mais procurados pelos investidores em momentos de incerteza econômica e juros altos.

Na prática, isso significa que o próprio aumento da taxa básica de juros passou a pressionar ainda mais o endividamento do governo.

Com a Selic em 14,5% ao ano, o custo de carregamento da dívida cresce de forma acelerada porque uma parcela relevante dos títulos públicos acompanha diretamente a variação dos juros básicos. Só em abril, o reconhecimento contábil dos juros adicionou mais de R$ 92 bilhões ao estoque da dívida.

O movimento ajuda a explicar por que o governo vem encontrando mais dificuldade para ampliar a emissão de títulos prefixados, considerados mais saudáveis do ponto de vista fiscal por oferecerem maior previsibilidade de pagamento no futuro.

Em cenários de instabilidade, investidores costumam exigir taxas mais altas para comprar papéis de longo prazo com juros definidos antecipadamente. Isso faz com que o Tesouro aumente a dependência de títulos pós-fixados ligados à Selic, que acabam ficando mais caros justamente quando os juros sobem.

Hoje, quase metade da dívida pública brasileira já está indexada à taxa básica da economia. Em abril, a participação desses papéis subiu de 47,7% para 48,6% do total da dívida.

Apesar do avanço do endividamento, o Tesouro tenta transmitir uma mensagem de controle da situação fiscal.

O chamado “colchão da dívida”, reserva financeira usada para enfrentar momentos de turbulência ou concentração de vencimentos, voltou a crescer após uma forte queda em março e encerrou abril acima de R$ 1 trilhão. Segundo o governo, o volume atual seria suficiente para cobrir quase nove meses de vencimentos da dívida pública.

Outro dado acompanhado de perto pelo mercado é o prazo médio da dívida, que ficou em 4,12 anos. Quanto maior esse prazo, maior costuma ser a percepção de confiança dos investidores na capacidade do governo de honrar compromissos futuros.

Mesmo assim, o cenário segue desafiador.

O próprio Plano Anual de Financiamento do Tesouro projeta que a dívida pública brasileira deve encerrar 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

Além da pressão dos juros, fatores externos também seguem influenciando o comportamento dos investidores. Em abril, o aumento das tensões no Oriente Médio reduziu a participação de estrangeiros na dívida interna brasileira, movimento normalmente interpretado como sinal de maior cautela global com mercados emergentes.

Para empresas e investidores, o avanço da dívida pública importa porque influencia diretamente o ambiente econômico do país.

Quanto maior a necessidade de financiamento do governo, maior tende a ser a pressão sobre juros, crédito, câmbio e percepção de risco fiscal. E isso acaba chegando à economia real na forma de financiamento mais caro, menor capacidade de investimento e desaceleração da atividade econômica.